segunda-feira, 22 de agosto de 2016

BERILO, AQUI E ALÉM




Busco Berilo e o encontro transformado em rosas vermelhas no lugar em que os seus avós já são senhores. Era assim que ele desejava ser enquanto derramava poesia nos cantos, recantos e encantos desta cidade do Natal. Ele está cercado de pessoas queridas. Luís Carlos Guimarães lhe faz provar o fruto maduro de sua poesia. Gilberto Avelino usa um sextante como navegador que é, enquanto apascenta o vento leste. Luís da Câmara Cascudo preside todos os folguedos, cores e alegrias. Os Meses, vestidos como raparigas, novembro à frente, desfilam para lhe ofertar flores, xananas sempre abertas.

A mesma brisa natalina refresca o céu, no passar lento do vento, Berilo existe e resiste, soprando elíseos e carinhos sobre Maria Emília, Henrique, Rômulo, Alexandre e Milena.

Aqui, aos setenta anos de sua presença e vinte e cinco de ausência, os homens continuam a trazer para suas mulheres o suor, o pão quente e o amor. Berilo transformou-se em rua, escola, centro acadêmico, cinema e saudade. Berilo é uma pedra preciosa que se faz luminosa em nossa lembrança.

Difícil imaginar o lírico Berilo Wanderley em pleno exercício como Promotor de Justiça. Seria sempre o direito iluminado pela poesia. Professor, também ensinaria apenas a arte de viver de leve, como os passarinhos. Era “um ser em trânsito” como o definiu Sanderson Negreiros. Nada o satisfazia plenamente. Um cunhado coronel lhe permitia tomar um avião, B-25, para o Rio de Janeiro. Uma vez reclamou que o avião tinha uma goteira...

Gostava de beber no famoso Bar da Mocidade, na Ribeira. Cantarolava “Com que roupa eu vou / para o samba que você me convidou” enquanto buscava o ritmo na caixa de fósforos. Conta-se que Sanderson Negreiros, que nessa época andava com um revólver no cinto, depois de beber muitas, deu tiros contra um armazém comercial gritando: “Morra! Morra o capitalismo!” E Berilo Wanderley: “Nunca mais bebo com você”. Meses depois, convida Sanderson: “Bom, basta, prefiro beber com você dando tiros, do que com os medíocres que não sabem atirar. Bom, basta!” Esta era a expressão que mais gostava, aprendida nas sertanias do Cabugi.

Um conhecido escritor católico vai lançar em Natal um livro com o título Bombom, Chocolate e Ameixa. Berilo anuncia o lançamento na Livraria Universitária, mas comenta: “Bom, basta! Eu pensei que era em uma confeitaria...”

Maria Emília quer vender o carro. Aparece o primeiro comprador e começa a pedir informações, pede para abrir o capô. Berilo responde, pausadamente, sem entusiasmo. Lá para as tantas, segreda ao comprador: “Não compre, não. Este carro mal sai do lugar...”.

Deus costuma recompensar os que têm o hábito da bondade lírica, os que têm a consciência do simples, os que toleram as tristezas procurando sempre estar contente, alegre, feliz. Feliz significa ter amigos e um amor verdadeiro.
Berilo Wanderley foi um contemplativo e via o mundo à sua maneira. É reconhecido inconfundivelmente como um bom poeta e ótimo natalense.


DCL





Um comentário:

  1. DCL tem muitas histórias e lembranças sobre o universo da literatura local. Compartilhei a postagem em meu blog.

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